Top
Iquique_feature_2000

RAD#05 – Habitação social incremental | Quinta-Monroy

Aravena_03

No post RAD#03, vimos o trecho da entrevista do Arquiteto Alejandro Aravena com a complicada equação que devemos resolver para conseguirmos uma resposta adequada ao rápido crescimento urbano: em 2030 a população urbana chegará a 5 bilhões, sendo que 2 bilhões estarão abaixo da linha da pobreza. Para acomodarmos todas as pessoas, devemos construir, só nos países em via de desenvolvimento, uma cidade de 1 milhão de habitantes por semana, com unidades de U$10.000 – no melhor dos casos.

Porém, na maioria das vezes, contaremos com a metade desse recurso, que sequer é suficiente para construir meia uma casa. Dito de outra forma:

equacao

"Na velocidade em que a demanda por habitação existe hoje em dia, a autoconstrução, que tem sido vista até agora como um problema, provavelmente seja hoje a única maneira de solucionar esse desafio que temos no planeta", diz o arquiteto Alejandro Aravena, "O problema de quando as pessoas constróem suas próprias habitações em condições informais não é o dinheiro e sim a falta de coordenação – o que devemos fazer é colocar esse conhecimento profissional que lhes falta para coordenar essa capacidade natural que essas pessoas têm. A favela não deve que ser vista como a representação da incapacidade de fazer uma habitação. Pelo contrário, ali está expressa uma enorme capacidade: em um local onde não tem nenhum recurso público, conseguem prover um teto. Portanto, temos que ver isso como uma enorme energia, um enorme potencial que requer cordenação estatal e profissional adequada, para que toda essa energia tenha uma transformação positiva e não de deterioração do ambiente urbano – utilizar a capacidade catalisadora e transformadora da favela como uma energia positiva, e não negativa. A crítica histórica aos projetos de habitação social provavelmente está ligada ao fato de que, em geral, devido à escassez de recursos e à escala em que se deve construir, estes projetos ofereçam soluções monótonas, repetitivas, com um padrão que é incapaz de reagir à diversidade familiar, social, culturais, ao estilo de vida das pessoas que precisam trabalhar em casa. Existe um aspecto muito amplo de realidades sociais que precisam ser satisfeitas, porém, por uma questão de escassez de recursos, os projetos trazem soluções monótonas, padronizadas.

O que observamos frente a essa escassez de recursos por parte do estado e do mercado privado, são duas estratégias: por um lado a da redução, diminuir o tamanho da unidade habitacional, e por outro a implantação em uma área desvalorizada, onde o solo custa pouco, geralmente nas periferias da cidade que estão marginalizadas e segregadas de todas as oportunidades que as cidades oferecem. Se em vez de usarmos essas estratégias e pensarmos em incrementar, fazemos aquilo que exige mais projeto, uma mão de obra mais específica e permitimos que as pessoas completem sua habitação conforme o tempo. Ou seja, se enfrentarmos a escassez por meio da incrementabilidade, usaremos essa capacidade de autoconstruir das pessoas como um recurso de personalização, customização da habitação social, que historicamente não tem a capacidade de reagir à diversidade social. Em outras palavras, fazer com recursos públicos tudo aquilo que uma família não vai conseguir fazer por conta própria e deixar uma parte da habitação a ser construída pelas próprias famílias. Então, essa força, essa capacidade de autoconstrução pode assim ser vista como um processo de personalização frente à monotonia. Quando optamos por este sistema aberto, a monotonia e a repetição serviriam para que as intervenções individuais operem como uma personalização, enfatizando a intervenção individual e fazendo com que esta assuma uma conotação positiva."

QM_03

Quinta-Monroy é o primeiro caso de habitação social incremental de Alejandro Aravena e sua equipe. A comunidade estava em um processo judiciário bastante complicado: 100 famílias ocupavam um terreno há mais de 30 anos, e não queriam deixar o local por razões óbvias – as conexões afetivas que haviam feito no local e a localização privilegiada, próxima ao centro da cidade.

Como ter uma habitação digna, pagar por um solo caro, e manter as famílias inseridas nas oportunidades que a cidade oferece?

dinheiro_02
Alejandro Aravena:


"Creio que seja importante entender o seguinte: evidências demonstram que uma família de classe média vive razoavelmente bem em 80m². Se temos dinheiro público para que a habitação social tenha esse tamanho e essa localização, então não existe um problema, mas o que acontece quando não temos esse dinheiro? As habitações que países como os nossos são capazes de entregar por meio de subsídio, meios públicos, estão em torno dos 40m². O que fizemos no ELEMENTAL foi nos perguntarmos: Os 40m² que se pode pagar com dinheiro público poderiam ser metade de uma casa com DNA de classé média, com os 80m²?  Metade de uma casa boa é melhor que uma casa pequena inteira – e que metade fazemos? Com o dinheiro público deveríamos construir as partes que as famílias não iriam conseguir fazer por conta própria, então identificamos essas partes. A segunda ideia que nos parecia relevante, é que todos nós, quando compramos uma casa, esperamos que esta aumente de valor conforme o tempo, e evidências nos mostram que, no caso das habitações sociais, as casas equivalem à compra de um carro: cada dia que passa o valor cai. Portanto, para enfrentar esse problema deveríamos redefinir a noção de qualidade – em vez de pensar que uma habitação social boa é uma casa com todos os acabamentos, para nós uma habitação boa é aquela que é capaz de aumentar de valor conforme o tempo. Se isso ocorre, o projeto pode ser considerado um investimento e não um gasto social. Para uma família pobre, é muito relevante que esse patrimônio aumente de valor conforme o tempo, porque a família pode usar essa habitação como um mecanismo de superação a pobreza e não só como uma proteção e um teto".

QM_04Ou seja, a primeira fase da casa teve um custo de aproximadamente USD: 7.500,00. A segunda fase de ampliação teve custos variados, que na média estão entre USD1.000,00 e USD2.000,00. Hoje em dia, as casas de Quinta Monroy / Conjunto Habitacional Violeta Parra estão avaliadas em mais de USD20.000,00:

                                                  7.500 + 2.000 =  20.000

As Habitações estão separadas em dois pisos, em uma espécie de edifício paralelo com sistema aberto, quem está no piso inferior expande dentro e para os lados, quem está no duplex acima, evolui tanto no espaço vazio ao lado como para cima, no desenho abaixo segue o processo evolutivo na planta do primeiro pavimento:
Plantas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O projeto foi feito em conjunto com os moradores em todas as suas fases: concepção, desenvolvimento e acompanhamento das obras. Inúmeras oficinas de orientação e cursos gratuitos, como de elétrica e hidraulica, foram disponibilizados para orientar os moradores e prepará-los para a fase de expansão de suas casas. Em nenhum momento o escritório de arquitetura impôs restrições quanto às expanções – estas são frutos da coexistência, do consenso e da convivência entre os moradores.

Iquique_06

Próximo post: Entrevista com os moradores de Quinta-Monroy | Conjunto Habitacional Violeta-Parra

Leave a comment