Top
dinheiro_02

RAD#3 – Entrevista Alejandro Aravena – Elemental

Aravena_1500No dia 15/11/2013 entrevistamos o Arquiteto Alejandro Aravena – sócio-diretor do escritório Elemental. Considerado uma das 100 pessoas mais influentes da América Latina, Aravena vem desenvolvendo uma nova linha de pensamento no campo da habitação social, com foco em alta qualidade profissional e intelectual. Por meio da viabilização de projetos que combinam baixo orçamento, qualidade urbanística e autoconstrução, o arquiteto chama atenção para nossa crítica realidade:
"Pela primeira vez na história há mais pessoas morando nas cidades do que no campo e, ao mesmo tempo, devido à alta envergadura e velocidade do processo de urbanização, as cidades não comportam esse ritmo de crescimento, gerando uma complicada equação que precisamos resolver: em 2030 a população urbana chegará a 5 bilhões, sendo que 2 bilhões estarão abaixo da linha da pobreza. Para acomodarmos todas as pessoas, devemos construir nos países em desenvolvimento uma cidade de 1 milhão de habitantes por semana, com unidades de U$10.000, no melhor dos casos. Porém, na maioria das vezes, contarenos com a metade desse recurso, que sequer é suficiente para construir metade de uma casa. Dito de outra forma:
equacao( Trecho da entrevista)

HIMAWARI: Como resolver o problema mundial da habitação?
Alejandro Aravena: "Antes de falar sobre o problema mundial de habitação social, gostaria de falar dos benefícios e dos motivos que trazem as pessoas para a cidade. Se existe um problema de habitação, é porque há muitas pessoas querendo vir para cidade e que necessitam de uma habitação. E por que as pessoas vêm para cidade? Porque ela tem algo a lhes oferecer, as cidades não são um acúmulo de casas, são concentrações de oportunidades: trabalho, educação, saúde, transporte, recreação etc.
É fundamental entendermos o processo de urbanização do planeta – as pessoas que se movem do campo para cidade buscam melhores perspectivas e oportunidades que as cidades concentram. Como consequência disso temos o problema de prover habitação de boa qualidade para essas pessoas. Essas pessoas têm algo a ganhar e isso não está suficientemente destacado.
Em princípio, é uma boa notícia que as pessoas venham à cidade. Por mais antiintuitivo que pareça,  as cidades têm melhores condições de vida, de empregos ou de oportunidades. Quanto mais as pessoas venham para cidade melhor. As cidades, ao mesmo tempo, concentram massa crítica, é nelas que se cria o conhecimento, são poderosos veículos de criação de riqueza. Creio que seja importante equilíbrar essa noção de que a cidade tende a ser um lugar problemático, friccional e cheio de conflitos – porque, sim,  se esses conflitos existem é porque há algo a se ganhar na cidade.
Esse processo ocasionado por pessoas que chegam à cidade em busca de melhores condições de vida, em última análise, possui algumas características distintas. Primeiro, existem mais pessoas vivendo na cidade do que em zonas rurais, e esse processo de urbanização ocorre em uma escala de velocidade grande e com uma escassez de recursos sem precedentes na história da humanidade. Se não encontrarmos uma maneira de acomodar essas pessoas na cidade, isso não fará com que elas deixem de vir, elas continuarão vindo de uma maneira ruim, vivendo de maneira informal e com má qualidade de vida – e é aí onde está o maior desafio: para termos uma ideia, o mundo nesse momento tem 6 bilhões de habitantes, 3 bilhões de habitantes são urbanos e desses, 1 bilhão vivem abaixo da linha da pobreza. Em 2030 teremos 5 bilhões de habitantes urbanos, 2 bilhões vivendo abaixo da linha da pobreza, isso significa que nós, como humanidade, necessitamos construir uma cidade de 1 milhão de habitantes por semana com 10 mil dólares por família, durante os próximos 20 anos, para acomodarmos de maneira razoável essas pessoas que vão à cidade em busca de melhores perspectivas. Como resolvemos essa equação?
Não sabemos.
É uma pergunta difícil, é necessário conhecimento. Se há uma resposta à altura, é que necessitamos qualidade profissional, e não caridade profissional. Precisamos do conhecimento dos engenheiros, urbanistas, políticos, das próprias comunidades. Claramente, estamos entrando em um campo para o qual é preciso inovar – até agora, da forma como projetos de habitações sociais são executados, não foi encontrada uma solução para esse problema.  Essa é uma pergunta nova, uma outra escala, outra magnitude e uma outra velocidade.

O que está claro é que o governo, a iniciativa privada, por si só, não conseguirão resolver um problema dessa magnitude. A favela, a informalização, não são o problema e sim parte da solução."

( Próximo post RAD#04 – De Santiago a Iquique | Conceitos edifício Paralelo – Elemental )

 

1 Comment

Leave a comment